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Eleição

Voto comprado ou compra de voto: em 4 histórias

por vieirajr

1968: tostão contra o milhão

Brasil em tensão, efervescia, sob o comando do Costa e Silva. Em março a Polícia Militar carioca assassina o estudante secundarista Edson Luís de Lima Souto. Morte que gera comoção nacional e protestos. Em Jales, interior do Estado de São Paulo, a campanha eleitoral está em ebulição entre a Arena e MDB. De um lado o empresário José Antônio Caparroz (Arena), do outro lado a aposição com o médico Edison Freitas de Oliveira (MDB). Era a campanha do Tostão contra o Milhão. A euforia estava com a elite que acreditava numa vitória fácil e convencional, principalmente porque estava ao lado do governador Abreu Sodré, nomeado pelo Regime Militar. Para os partidários da Arena, o MDB era um “balaio de gato” – expressão popular que simboliza bagunça, desordem, confusão e misturas de coisas e pessoas desorganizadas”. Enquanto no comitê da oposição era servido café e água, no da Arena era café, água, lanche, refrigerantes e muito santinhos. Na campanha, os comícios do Caparroz eram metódicos, passivos, ou melhor, sem emoção. Em detalhe: os eleitores eram transportados pelos ônibus da empresa do candidato arenista, que percorriam os bairros coletando os supostos fieis. (José Devanir Rodrigues) Já os comícios do Edison eram espontâneos e autênticos. Após o comício, por exemplo, nos bairros rurais, Edison dormia na casa de um emedebista. Detalhe: coxão era de palha. Atitude enobrecia a família acolhedora. (José Devanir Rodrigues) Ele também dizia aos eleitores para “comerem os lanches oferecidos no comitê do Caparroz, mas votarem nele, Edison”. (Chico Melfi). No dia do voto, 15 de novembro, tudo era festa no comitê do Caparroz, do outro lado era esperança na vitória, mesmo com o comitê vazio. 17 horas daquela sexta-feira, urnas fechadas, a cidade entra euforia e expectativa. Votos contados um por um, não era digital, a vitória tão esperada pela Arena, não aconteceu. O vencedor foi o jovem médico, de 38 anos na época, Edison Freitas de Oliveira. A frustação da Arena foi porque a agitação no comitê nas vésperas da votação e no dia indicava a vitória, mas “com perrepis”. (grifo meu) Na sexta-feira os comandantes da Arena promoverão uma churrascada livre, ou seja, “é só chegar e encher à pança. O local foi em um dos prédios do Honório Amadeu. (Carlos Rayel) Lógico que os eleitores do MDB, o balaio de gato, após o voto, enfiavam um “santinho” de qualquer candidato da Arena, como se fosse o passaporte da boca livre, e, como se fossem um autêntico arenista, aproveitaram a carne assada e de “grátis”. Depois, felizes passavam pelo comitê do MDB com a certeza da vitória. E ela veio! Fica o registro que comprar votos não é garantia de vitória. Jales fez história ao eleger em pleno regime militar, tornando conhecida como a “Capital da Resistência Democrática” por ter sido uma das únicas três cidades do Estado de São Paulo a eleger um prefeito do MDB. Hoje o bolsonarismo é dominante. 1968 não termina em estado democrático de direito. Em dezembro o Governo da Ditadura Militar instaura o Ato Institucional nº.5. O cenário politico foi marcado por cassações, perseguições, prisões, torturas, assassinatos e desaparecimento de políticos, lideranças sindicais e estudantis. Detalhe: prefeitos e vice-prefeitos eleitos em 1968 foram cassados.

Coronelismo: o voto de cabresto

A geopolítica é a ciência que estuda as relações de poder entre os territórios e da articulação entre os diferentes Estados nacionais. Ou entende-se por geopolítica todas as relações de poder que são estabelecidas entre diferentes países e territórios e as dinâmicas espaciais, políticas e econômicas diretamente associadas a elas. (Brasil Escola) A politica brasileira é um sistema que funciona com mão única, ou seja, para atender, desde sempre o pré-colonial, o colonial, a nobreza imperial, a oligarquia cafeeira, a burguesia, a elite empresarial, o capital e recente os gigantes globais da tecnologia digital. E é neste contexto geopolítico que entra em ação o coronelismo, que dominou entre 1889 1930, Velha República e Era Vargas, promovendo sem máscara o voto de cabresto. A história conta que os coronéis – considerados uma oligarquia estadual – detentores do poder político e econômico controlavam, principalmente pela violência, os movimentos da população. Os “padrinhos”, como eram reconhecidos, elegiam seus representantes políticos legislativo ou administrativo, cujo objetivo era manter o “reinado” e ampliar o seu patrimônio politico e econômico. Hegemonia que passou de geração para gerações, hoje com outro formato de cabresto. A história conta, mas nem sempre registra, que o “padrinho” passava na casa do “afilhado” na véspera da votação para coletar o título de eleitor. Ele ia pedindo e recebendo. Um dos “afilhados” perguntou: “mas eu sei votar”. E coronel respondeu: “não confiou em você”. Na casa seguinte, outra pergunta: “Padrinho em quem eu vou votar”. Resposta: “O voto é segredo”. Não é exagero dizer que ainda há, o voto de cabresto.  Há o empregatício, o espiritual, o do medo, da vigilância miliciana e da fake News. Todos eles têm raízes fecundas no centenário voto de cabresto. Há registro que o voto de cabresto foi extinto com a Revolução de 30 (Era Vargas). É apenas registro, não o fim. O voto de cabresto, principalmente no Nordeste, foi e ainda é um dos responsáveis pela crise energética, econômica, política, educacional, saúde pública, habitacional, transporte.

2022: as motociatas

“14/07/2022: Governo ganha poder para doar de cesta básica a trator na campanha eleitoral”. É manchete do jornal O Estado de S. Paulo, edição de quinta-feira. A manchete revela e põe em prática é velho e eterno voto de cabresto, mas, infelizmente, legalizado e escancarado. É o dinheiro público liberado pelo Congresso para empoderar os candidatos com dinheiro vivo em poder. Pediu voto, não deu, não tem dinheiro. É o toma-lá-dá-cá na ciranda eleitoral. É o voto de cabresto com máscara de orçamento secreto. Orçamento secreto que ficou ainda mais secreto. De acordo com O Estadão: “Em menos de vinte minutos, os parlamentares votaram dois projetos que tornam ainda mais oculto o orçamento secreto, autorizam o governo a distribuir de cesta básica a tratores no meio da campanha e permitem ao Executivo tirar verba já reservada a um município para colocar em outro, de acordo com conveniências políticas. As medidas contrariam pareceres técnicos, lei eleitoral e até a Constituição”. Longe dos holofotes do Congresso Nacional, o presidente Bolsonaro promovia motociatas pelo Brasil de meu Deus. Na verdade, era uma outra forma de voto de cabresto, agora de rodas e sem capacete. O pagador das “vadiagens” era, na época, o cartão corporativo do Governo Federal. Motociatas que não garantiam qualquer benefício ao município que recebia o “Brancaleone” nacional. Ou melhor, só gastos com segurança, festa e homenagens. No final, a prefeitura tinha que pagar a conta e garantir votos ao presidente das motociatas. Enquanto a roda da gastança pública movimentava o distúrbio na esparramação de dinheiro sem o mínimo de controle; já povo – que se dane – enfrentava a fila do osso para enganar a fome; fome que não se engana com uma sopa de osso. Mas nem tudo que você deseja é garantia de sucesso. A dinheirama a “boca libre”, embora tenha marcado território dos deputados e senadores, não foi suficiente para manter Bolsonaro por mais 4 anos no Palácio do Planalto. Insucesso que mexeu com os brios do Bolsonaro e o fez perder as “estribeiras” moral, que pôs a vitória do Lula em xeque-mate. É cristal que o voto de cabresto não é garantia de eleição. Ao contrário: é certeza de traição pelas costas ou de cara a cara. Outro voto de cabresto usado em 22, foram as fake News. Também não tiveram o mesmo êxito da eleição de 2018. Será que “motociar” sem capacete é o responsável pela derrota de 22?

2026: liberou geral/porteira arreganhada e sem mata-burro

22/5/2026 – edição Folha – Manchete “Congresso derruba vetos de Lula e libera verba a cidades antes da eleição”. A derrubada refere-se a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO)

Quando há a esperança que tormento do voto de cabresto foi colocado no lixo da história, em particular com a eleição de Lula em 22, o roteirista do Brasil não tem dó: prega outra peça contra o princípio da moral e ética no exercício da política, enquanto cuidadora do patrimônio público e de sua relação harmônica com a sociedade. Lula havia vetado da LDO “liberação da doação de bens, valores ou benefícios pela administração eleitoral, trecho visto como favorável às emendas”. (Folha) Com a decisão do Congresso Nacional, liderado pelo presidente Davi Alcolumbre, os parlamentares terão segurança que nada acontecerá com eles ao distribuírem verbas e benefícios como cestas básicas, retroescavadeiras, caminhões, remédios a prefeituras e governos estaduais durante a campanha eleitoral. Porteira arreganhada põe água gelada no que determina a Lei Eleitoral que proíbe o abuso do poder econômico em período eleitoral.  Há outra gravidade: o dispositivo liberado pelo Congresso Nacional beneficia deputados, senadores, governadores que já têm o dinheiro na mão, fruto das emendas impositivas, crias do orçamento secreto. O escândalo da distribuição de bens, tratores, medicamentos, cestas básicas com a “carinha” ou a assinatura do autor das emendas, em período eleitoral, caracteriza voto de cabresto e a preservação dos mandatos de deputados e senadores, o que provocará o menor índice de renovação do Congresso. Na verdade, impede que os novos candidatos, sem o mesmo grau de competividade econômico, terão que redobrar o trabalho de campo e fortalecer os conchavos políticos, gastando muito solo e sapato e saliva. Outro impeditivo: nem todos os novatos terão recursos do Fundo Partidário. Então é previsível que o parlamento brasileiro continuará conservador, extremista e distante do povo. No salve-se quem puder, o presidente Lula precisa cuidar do Legislativo. Tarefa nada agradável. Ou cuida da própria campanha em detrimento ao próximo Congresso, com tendências “se há governo, sou contra”. Possibilidade que pode, caso eleito, blocar a sua governabilidade de combate aos avanços do extremismo de direita e da implantação de políticas públicas que possam garantir os direitos fundamentais e solucionar problemas de interesse coletivo. As políticas devem abranger áreas essenciais como saúde, educação, segurança e infraestrutura, buscando promover a qualidade de vida e o bem-estar da população. Não como negar que o Congresso viabilizou “democraticamente” o uso do “voto de cabresto”, agora com características oficialescas, e também o coronelismo parlamentar. Aquele que se apresenta em campanha como um “cordeirinho” democrata, o candidato do povo, mas depois de eleito, se comporta no Parlamento em defesa das big Techs, bets, do agronegócio, da Faria Lima, da milicia e do empresário.  Porteira arreganhada e sem mata-burro. Tudo em prol, “brecha legal”, mas não democrática, da fragilidade eleitoral, da imoralidade, da ascensão do partidarismo, da teocracia, do conservadorismo religioso e do não-esperançar.