Em 6 de setembro de 2018, em Juiz de Fora (MG), uma facada mudou a história política do Brasil para pior. Começou ali, em solo mineiro, a derrocada do debate público. Entrou em cena a narrativa do ódio, do medo e da tentativa de destruição dos poderes constitucionais. Há oito anos, o Brasil deixou de ser movido pela convivência pacífica entre amigos, parentes e adversários políticos para se transformar em um terreiro de enfrentamento moral e divisões territoriais: de um lado, o “Brasil Pátria e Família”; do outro, os “comunistas”. Um chavão antigo, mas primoroso no vocabulário do extremismo de direita que renascia com um pensamento homofóbico, triturador de ideias progressistas, democráticas e conciliadoras.
A vitória de Jair Bolsonaro em 2018 rachou o país e proliferou a mediocridade cognitiva no Congresso Nacional. Deputados e senadores, eleitos pelo povo, colocaram em marcha a busca pela primazia das benesses oferecidas aos financiadores de suas campanhas. Dito e feito: o Brasil entrou em rota de colisão entre o passado e o futuro. Infelizmente, a eleição de Bolsonaro abriu as portas para o entreguismo e redescobriu o regime militar como um suposto governo democrático e defensor da justiça social.
Foram quatro anos em que os progressistas, democratas e patriotas iam dormir sem saber o que seriam no dia seguinte. Foi um governo para menos de 1% da população brasileira, marcado por cortes nos orçamentos da saúde, da cultura e da educação, além do desmonte de estatais vendidas a preço de banana. A Eletrobras teve seu processo de desestatização concluído em junho de 2022, sendo a maior empresa federal privatizada no período. A BR Distribuidora foi vendida pela Petrobras em 2019, passando totalmente ao controle privado. A Codesa (Companhia Docas do Espírito Santo) foi privatizada no início de 2022. Somem-se a isso as refinarias e ativos estratégicos: a Petrobras vendeu subsidiárias, refinarias (como a Refinaria Landulpho Alves, atual Mataripe) e participações em redes de distribuição de gás e combustíveis, como a Liquigás. Todas elas eram fundamentais para a autonomia do Brasil no controle de preços e do mercado. Ou seja, tudo foi entregue às mãos do setor financeiro nacional e internacional.
A história não se apaga. Portanto, é preciso desvendar as peripécias fantasmagóricas implementadas pelo capitão. Elas causaram dor, choro, desmantelamento do patrimônio público, destruição da harmonia social, benevolência a pastores evangélicos e aos novos “senhores de engenho”, além do desprezo pela Covid-19, que matou milhares de brasileiros por falta de socorro humanitário. Bolsonaro não comprou a vacina a tempo e ainda zombou dos enfermos.
É preciso registrar que a notícia também faz história, e a Operação Lava Jato foi um dos estopins para a ascensão do bolsonarismo raiz e do extremismo de direita. Sergio Moro e Deltan Dallagnol foram duas estrelas cadentes. Como define a ciência, uma estrela cadente é, na verdade, um meteoro: um rastro luminoso gerado quando um pequeno fragmento de asteroide ou cometa entra na atmosfera da Terra em alta velocidade. Nasceram, fizeram o que fizeram e deixaram rastros malignos; mesmo assim, ainda estão na película amassada e arranhada da história nacional. Infelizmente, foi nesse burburinho das falsas investigações de Moro que brotou das trevas a ideologia que hoje defende a família Bolsonaro e a teocracia. Por incrível que pareça, eles não acreditam na democracia: veneram a mentira como fato e idolatram o imperador do caos, Donald Trump. É o antagonismo puro que corre nas veias do bolsonarista raiz. Como bem disse o jornalista Luiz Nassif:
“O Brasil ainda paga o preço da eleição de Bolsonaro”.
O roteirista da política brasileira não está para brincadeira e não ficou satisfeito com o que fez há oito anos. Para se redimir, ainda que sem entusiasmo, colocou no roteiro a vitória da Frente Democrática liderada por Lula em 2022. Mas não foi muito além disso. Pior: embriagou-se com a estupidez do 8 de janeiro, reviveu os métodos da desastrosa Lava Jato e copiou a invasão do Capitólio dos EUA.
A campanha de Flávio Bolsonaro é blindada pela mídia hegemônica, pela Faria Lima e vista com apreço pelos EUA. Já a campanha de Lula conta com o apoio popular e com as mensagens na televisão aberta e nas redes digitais. Para conturbar o cenário e tirar Flávio do foco do “Caso Master”, entrou em cena, pela enésima vez, o “Lulinha”, com o vazamento de um suposto envolvimento do filho de Lula com uma lobista. Sob a tutela da grande mídia, o fato fake ganhou fôlego e abafou o escândalo principal. Percebe-se que já existem movimentos para tumultuar a eleição de 2026, provocando dúvidas no eleitorado e fomentando o medo e o pânico na população caso Lula vença. O roteirista segue em ação.
O ministro “terrivelmente evangélico” André Mendonça, do alto de sua atuação, entrou de vez na campanha de Flávio Bolsonaro. O roteirista não teme o perigo. O documento principal do Caso Master, retirado do sigilo por Mendonça, é um relatório de inteligência da Polícia Federal extraído do celular do banqueiro Daniel Vorcaro. Das 218 páginas do documento, 181 detalham especificamente interações ligadas ao ministro Alexandre de Moraes. Outro movimento de Mendonça foi proibir que os investigadores dos casos Master e INSS relatem os resultados das apurações aos seus respectivos chefes sem a sua permissão prévia. Não é exagero imaginar que o ministro terrivelmente bolsonarista não agiu em defesa da democracia ou do fortalecimento dos três Poderes.
Setembro é o mês da primavera, mas também tem sido o mês dos coquetéis-molotov que provocam rachaduras na solidez daquela que é considerada a principal eleição dos últimos 500 anos. De um lado, há a luta pela soberania, isto é, a defesa da preservação das instituições e da integridade do processo democrático contra interferências ou rupturas. Do outro, o fomento à polarização política, à instabilidade institucional, ao acirramento dos extremos e à radicalização de narrativas, com o claro propósito de quebrar a confiança nas urnas e aprofundar a divisão social.
No entanto, os movimentos antidemocráticos e extremistas não terminam em Mendonça. Flávio Bolsonaro, crítico ferrenho ao STF, mudou o discurso na campanha e afirmou que, se eleito, defenderá a autonomia da Suprema Corte. Pronto! Agora ele tenta se descolar da imagem do pai para posar em prol do Poder mais atacado por Jair Bolsonaro. Contudo, a tônica real de sua campanha continua sendo o “Fora Lula, Fora Moraes”. André Mendonça deu o apito de cachorro. É o sinal de que, na manifestação de 7 de setembro na Avenida Paulista — organizada pelo pastor Silas Malafaia —, o tom das retóricas será de ataque direto a Lula e a Moraes.
Mendonça foi o baluarte das revelações que miram reaquecer os bolsonaristas radicais e atrair a ala neutra da sociedade. O que acontecerá até o dia do primeiro turno? Só o roteirista pode dizer.



